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TDAH e saúde ao longo da vida: o que os estudos mostram sobre mortalidade

Foto do escritor: Rede TDAH Brasil
Rede TDAH Brasil
23 de out.
5 min de leitura

Atualizado: há 5 horas


Uma revisão com mais de 15,9 milhões de participantes encontrou maior mortalidade entre pessoas com TDAH. Os resultados merecem atenção, mas precisam ser interpretados como comparações entre grupos — não como previsões individuais.


Falar sobre TDAH e mortalidade pode causar preocupação. Por isso, antes de apresentar os números, é importante esclarecer o que eles representam.


Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2026 no JAMA Network Open reuniu estudos que acompanharam pessoas com e sem TDAH. Os pesquisadores queriam saber se havia diferenças na mortalidade por qualquer causa, por suicídio, por lesões e por doenças entre pessoas com e sem o diagnóstico de TDAH. Também investigaram se o uso de medicamentos para TDAH estava associado a alguma mudança nesses resultados.

O estudo encontrou maior mortalidade entre pessoas com TDAH. Isso não significa, porém, que a maioria morrerá precocemente ou que seja possível calcular o futuro de uma pessoa com base apenas no diagnóstico.


O que os pesquisadores analisaram?


A revisão reuniu 19 estudos, publicados entre 2012 e 2025, com um total de 15.920.970

participantes. As pesquisas foram realizadas em países como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Taiwan.

Doze estudos apresentaram dados que puderam ser combinados nas metanálises. Os demais foram considerados na revisão, mas não entraram nos cálculos principais porque avaliaram resultados diferentes ou utilizaram medidas que não podiam ser comparadas diretamente.

A maior parte dos estudos identificou o TDAH por meio de registros médicos e códigos diagnósticos. Alguns utilizaram autorrelato, medidas de características relacionadas ao TDAH ou outras informações similares.

Reunir estudos tão diferentes permite observar padrões em populações muito grandes. Ao mesmo tempo, essa diversidade exige cautela, pois os países, os sistemas de saúde, as formas de diagnóstico e os períodos de acompanhamento não eram iguais.


A mortalidade foi maior no grupo com TDAH


No conjunto dos estudos, a mortalidade por qualquer causa foi, em média, 71% maior entre pessoas com TDAH do que entre aquelas sem o diagnóstico.

Esse percentual é uma comparação entre grupos acompanhados ao longo do tempo. Ele não significa que uma pessoa com TDAH tenha, individualmente, uma probabilidade exatamente 71% maior de morrer. Também não significa que 71 em cada 100 pessoas com TDAH morrerão precocemente.

Para conhecer a probabilidade individual, seriam necessárias outras informações, como idade, condições de saúde, contexto social, duração do acompanhamento e frequência absoluta de mortes em cada população. A metanálise apresentou uma medida relativa entre os grupos, não um único risco absoluto aplicável a todas as pessoas.


Os resultados variaram conforme a causa da morte


Os pesquisadores também analisaram causas específicas. Em comparação com pessoas sem TDAH, o grupo com TDAH apresentou:


  • Mortalidade por suicídio 89% maior;

  • Mortalidade por lesões intencionais ou não intencionais 55% maior;

  • Mortalidade por doenças e outras causas naturais 27% maior.


Esses percentuais também representam médias entre estudos. A intensidade das associações variou consideravelmente entre as diferentes pesquisas, sobretudo nas análises de suicídio e de mortes relacionadas a lesões.

Os resultados mostram que a diferença não se restringiu a acidentes ou comportamentos de risco. Também foi observada uma associação, embora menor, com mortes decorrentes de doenças e outras causas naturais.


Por que pode existir essa diferença?


Não há uma explicação única. O TDAH pode se relacionar à saúde ao longo da vida por diferentes caminhos, que frequentemente se combinam.

Condições como depressão, ansiedade, transtornos relacionados ao uso de substâncias e outros problemas de saúde mental são mais frequentes entre pessoas com TDAH e podem contribuir para o risco de suicídio. Diferenças na atenção, no controle dos impulsos e na tomada de decisões também podem aumentar a exposição a acidentes e lesões.

A saúde física precisa igualmente ser considerada. Pessoas com TDAH apresentam maior frequência de algumas condições cardiovasculares e metabólicas. Alterações do sono, tabagismo, alimentação inadequada e dificuldades para manter tratamentos ou comparecer a consultas também podem participar desse processo.

Isso não deve ser interpretado como responsabilidade exclusiva da pessoa. Os autores destacam o papel de barreiras no acesso à saúde, estigma, exclusão social, desigualdades econômicas e falta de apoio adequado. Em alguns casos, comportamentos prejudiciais à saúde podem estar relacionados justamente a necessidades não atendidas e a ambientes pouco preparados para acolher pessoas neurodivergentes.


O que o estudo encontrou sobre os medicamentos?


Entre pessoas com TDAH, o uso de medicamentos esteve associado a uma mortalidade por qualquer causa aproximadamente 25% menor quando comparado ao não uso.

Esse resultado é relevante, mas precisa ser interpretado com cuidado. A análise reuniu apenas três estudos e não permite concluir que a medicação, isoladamente, tenha causado a redução.

Pessoas que recebem tratamento podem diferir das não tratadas em vários aspectos: acesso aos serviços de saúde, condições socioeconômicas, gravidade dos sintomas, presença de outros transtornos, acompanhamento profissional e adesão ao tratamento. Mesmo quando os pesquisadores procuram considerar essas diferenças, alguns fatores podem permanecer sem controle nas análises.

Portanto, o achado não significa que medicamentos garantam proteção contra a mortalidade nem constitui uma recomendação individual de tratamento. Ele reforça, porém, a importância de garantir acesso à avaliação adequada e às diferentes formas de cuidado baseadas em evidências.


Quais são as limitações?


Os estudos incluídos apresentaram diferenças importantes de população, desenho, definição de TDAH e controle de outros fatores que poderiam influenciar a mortalidade. Em algumas análises, os resultados variaram bastante de um estudo para outro.

Muitas amostras também tinham uma proporção maior de participantes do sexo masculino. Isso dificulta avaliar possíveis diferenças entre homens e mulheres, especialmente diante do reconhecimento de que o TDAH pode ser subdiagnosticado em mulheres.

O número de estudos disponíveis não permitiu identificar com segurança quais subgrupos apresentam maior vulnerabilidade. Os resultados devem, portanto, ser compreendidos como associações médias observadas em diferentes contextos — e não como valores universais.

Além disso, uma metanálise de estudos observacionais pode identificar padrões consistentes, mas não demonstra que o TDAH, por si só, tenha causado as mortes observadas.


O que esses resultados acrescentam ao cuidado?


Os achados reforçam que o acompanhamento do TDAH não deve se limitar ao desempenho escolar, ao trabalho ou ao controle dos sintomas centrais. O cuidado ao longo da vida também precisa considerar:


  • Saúde física e fatores cardiovasculares e metabólicos;

  • Depressão, ansiedade e outras condições de saúde mental;

  • Risco de suicídio;

  • Prevenção de acidentes e lesões;

  • Uso problemático de álcool e outras substâncias;

  • Continuidade dos tratamentos;

  • Barreiras sociais e econômicas ao acesso à saúde.


Os números exigem contexto, mas não devem ser ignorados. A principal mensagem não é que um desfecho negativo seja inevitável. É que pessoas com TDAH podem enfrentar vulnerabilidades adicionais e precisam de acesso contínuo, integrado e equitativo aos serviços de saúde.



Curadora do texto: Drª Maria Eduarda de Araújo Tavares - Geneticista e Analista Sênior da Rede de Pesquisa TDAH Brasil


Fonte principal


1. Corrigan L, Heywood L, Stewart GR, et al. Mortality Among People With Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Network Open. 2026;9(10):e2639448. https://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2026.39448

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